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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

José - Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Desejos - Carlos Drummond de Andrade


Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Carlos Drummond de Andrade - Definitivo


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Poema das Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
 

 De Alguma poesia (1930)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Alfred Lord Tennyson - The "How" and the "Why"


Lorde Alfred Tennyson (1809 – 1892), 1º Barão de Tennyson é um dos membros mais tardios do romantismo inglês, é uma das maiores vozes do terceiro período do Romantismo. Laureado pela rainha Alexandrina Victoria (1819 – 1901) e é até hoje um dos poetas ingleses mais lidos e o autor mais citado no “O Dicionário Oxford de Citações”.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Paul Verlaine – Arte Poética


O francês Verlaine (1884-1896) nasceu em Metz e estudou em Paris. Sua biografia é considerada “atribulada e escandalosa”.

Arte Poética ou no original “Art poétique” de Verlaine escrito em 1874 e publicado pela primeira vez em novembro de 1882 marcou o início do Simbolismo.

Vem para superar o parnasianismo com características que já dava a direção do simbolismo como o pessimismo decadentista.


ARTE POÉTICA

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o impar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.

É preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras sem ambiguidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.

São belos os olhos dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!

Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o Matiz!
Oh! o matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta a trompa.

Foge para longe da Piada assassina,
do espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!

Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?

Oh! quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou está joia barata
que soa oca e falsa sob a lima?

Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja a coisa volátil
que se sente fugir de uma alma em voo
para outros céus e para outras paixões.

Que teu verso seja bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo....
E tudo o mais é só literatura.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Vinícius de Morais



Vinícius nasceu em 19 de outubro de 1913 no Rio de Janeiro no bairro do Jardim Botânico. Seu nome completo era Marcus Vinitius da Cruz de Melo Moraes, sua mãe Lydia Cruz de Moraes e seu pai Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. 

Em 1922 Vinícius escreve seus primeiros versos. 1922 é marcado pela Semana de Arte Moderna em São Paulo, do Centenário da Independência comemorado no Rio de Janeiro e do levante dos 18 do Forte de Copacabana. 

Escreve as primeiras canções com Paulo, Haroldo e Oswaldo Tapajós. “Com Haroldo Tapajós faz “Loura ou Morena” e, com Paulo Tapajós, “Canção da noite” (um "fox-trot brasileiro" e uma "berceuse", segundo a definição do próprio Vinicius).” 

Em 1929 torna-se bacharel em Letras pelo Colégio Santo Inácio. Volta a morar no Jardim Botânico. 

Com 17 anos no ano de 1930 entra na Faculdade de Direito. Vinicius conhece Otávio de Faria e San Thiago Dantas, além de companheiros como Américo Lacombe, Hélio Viana, Plinio Doyle, Chermont de Miranda e Antonio Galloti. 

Publica em 1932 na revista A Ordem pela primeira vez um poema de sua autoria. 

Seu primeiro O caminho para a distância (1933) foi publicado pela Schmidt Editora. Em 1935 publica pela editora Irmãos Pongetti seu segundo livro, Forma e Exegese. Conquista o prêmio Filipe d’Oliveira. “O livro recebe, na época, comentários positivos de Manuel Bandeira.”

Em 1936 conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo. 

Ganha bolsa para estudar a língua Inglesa em Oxford em 1938. Trabalha na BBC. 

“No ano de 1946, assume seu primeiro posto diplomático: vice-consul do Brasil em Los Angeles, Califórnia (USA). Ali permanece por quase cinco anos, sem retornar ao seu país. Publica, em edição de luxo, com ilustrações de Carlos Leão, seu livro, Poemas, sonetos e baladas”. 

Em 1954, Sai da primeira edição de sua Antologia Poética. A revista "Anhembi" publica Orfeu da Conceição

O Operário em Construção foi publicado em 1956. O Livro de Sonetos foi publicado em 1957. 

Em 1970 inicia sua parceria produtiva com Toquinho.

No dia 9 de julho de 1980 morre de edema pulmonar. 

É claro que muitas outras obras de Vinícius foram publicadas, inclusive postumamente, mas essa breve biografia demonstra a importância de Vinícius na Arte brasileira, tanto na literatura quanto no mundo da música.


Pátria Minha
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”
 


Fonte: